| Miopia Espiritual “São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso.” (Mateus 6:22) Gosto muito de ler crônicas. Dentre as minhas preferidas está “A velha contrabandista”, de Stanislaw Ponte Preta. É a história de uma senhora que diariamente cruzava a fronteira do país guiando uma lambreta. O detalhe curioso é que, na garupa de sua lambreta, ela carregava um enorme saco cheio de areia, que despertava a desconfiança dos fiscais da Alfândega. Por conta disto, diariamente a revistavam, esvaziando o saco de areia à procura de alguma pista ou evidência de contrabando. Entretanto, para desespero dos fiscais, as operações fracassavam sucessivamente. Um dia, consumido pela desconfiança e pela curiosidade, um fiscal — daqueles que, após 40 anos de serviço, conhece o ofício como poucos — abordou a velhinha e, num tom quase de súplica, lhe propôs um acordo mais ou menos nestes termos: “Eu prometo deixar a senhora passar e mantenho segredo de tudo, se me confidenciar qual é o contrabando que todos os dias a senhora está passando por aqui”. A velhinha, após se assegurar de que o fiscal manteria sua palavra, revelou o segredo: “É a lambreta”. Gosto desta crônica porque denuncia de forma bem-humorada um grave defeito que, sem nos darmos conta, muitas vezes possuímos: uma incrível limitação visual. Temos enorme dificuldade de enxergar para além da visão objetiva. Nosso olhar parece estar reduzido a este padrão, condicionado a agir segundo o critério do explícito, do visível (ao contrário do Pequeno Príncipe, que aprendeu que “o essencial é invisível aos olhos”). Via de regra, nossos olhos se deixam seduzir pelo suspeito, pelos “sacos de areia”, e desconsideram totalmente as “lambretas”. Nossa enfermidade tem nome: miopia; ou seja, “vista curta, estreiteza de visão, falta de perspicácia”. No capítulo 4 do Evangelho de João temos o registro de um encontro de Jesus com uma prostituta samaritana junto a um poço. Como muitas pessoas hoje em dia, aquela mulher era estigmatizada pela sociedade da qual fazia parte, vítima de um olhar (e de um juízo) estereotipado acerca de sua pessoa e história. Como na crônica que citamos, tal juízo nascia de um olhar social condicionado a julgar as circunstâncias e as pessoas por critérios meramente objetivos. Tão entranhado era este padrão, que a própria mulher se assustou ao se dar conta de que Jesus falava com ela (verso 9). Felizmente, Jesus não olhou para as pessoas da mesma forma que seus contemporâneos (como, hoje, não olha como nós). Seu olhar é muito mais sensível e profundo, mais subjetivo, livre de toda espécie de condicionamento. Enquanto as pessoas estabelecem seus juízos umas sobre as outras a partir do que vêem, Jesus concentra seu olhar naquilo que os olhos não podem contemplar. Seu foco é o coração, onde nascem todas as ações e expressões humanas. Ao contrário da mentalidade predominante, Jesus olhou para aquela mulher e viu nela uma mulher carente, que buscava nos homens uma forma de suprir sua demanda de afeto e atenção. Jesus vê alguém que está com tanta sede que já não é capaz de discernir o que procura. Por isto, Ele olha para ela e diz: “Se conheceras quem te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias e ele te daria água viva” (verso 10). O problema da mulher não era “falta de vergonha” ou de caráter, mas sede de sentir-se amada, acolhida e respeitada social e espiritualmente. Fico pensando no modo como nós, cristãos, agimos. Temos água para oferecer ao menino de rua, mas preferimos nos esconder atrás dos vidros-elétricos de nossos carros e chamá-lo de “pivete”. Temos água para o jovem que busca na droga saciar a sua sede, mas preferimos afastá-lo de nossos filhos e marginalizá-lo, rotulando-o de maconheiro. Temos água para quem procura no consumo ilimitado saciar sua sede, mas nos negamos a compartilhá-la enquanto os taxamos de playboys e “peruas”. Mais ainda: temos água para beber e agimos como se não a tivéssemos ou como se não precisássemos dela, pois tantas vezes gastamos nosso tempo correndo atrás das mesmas coisas que condenamos na busca alheia, enquanto negligenciamos a água que eles procuram. Nossa miopia é aguda, especialmente quando somos o objeto de nosso próprio olhar. Que o Senhor nos ilumine os olhos e nos ensine a discernir entre lambretas e sacos de areia. 
Rev. Leandro Marques |