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Rev. Leandro Marques - 17/11/2008
Carta a uma jovem com dúvidas
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Carta a uma jovem com dúvidas sobre o Gênesis

 

 

Minha querida jovem, 

 

que bom receber um e-mail seu e saber que está estudando Filosofia. Eu, se pudesse, também faria um bacharel em filosofia. Como não tenho tempo para tal empresa, faço as minhas leituras eventuais e, como você, também enfrento algumas dúvidas que, por um lado, geram crise, mas por outro, produzem enorme crescimento de minha fé. Acho que isso já responde a sua segunda pergunta sobre a necessidade (ou não) dos questionamentos. Sendo mais direto: eu sempre busco os questionamentos porque eles purificam a fé de infatilidades, preconceitos e superspetições. É claro que tal postura implica alguns riscos, mas eu prefiro me arriscar na busca da verdade libertadora a viver a falsa segurança de uma ilusão ou mentira. 

 

Quanto a Adão e Eva, posso indicar um bom livro, de fácil leitura, que irá te ajudar demais. Chama-se: "Paraíso Terrestre: saudade ou esperança?". O nome do autor é Carlos Mesters e o texto foi publicado pela editora Vozes. Creio que ele será de grande utilidade para você. De minha parte, eu te diria o seguinte: não há como provar que Adão e Eva tenham existido. Por outro lado, não há também como provar que eles não tenham existido. Se de fato eles existiram e as coisas aconteceram exatamente como narradas na Bíblia, então provavelmente os seus filhos relacionaram sexualmente entre si para gerar outros descendentes. No caso de não nascer filha mulher, Eva teria sim de ter se deitado com seus próprios filhos... 

 

Mas, por mais chocante que possa parecer, nada disso tem grande importância. Pois quando lemos o livro de Gênesis, não devemos procurar nele informações exatas ou fatuais como esperaríamos de uma reportagem, por exemplo, da Super-interessante ou da Nacional Geográfica. Porque o Gênesis não é um livro de ciência ou de história (não ao menos como nós pensamos a história hoje). O Gênesis é antes um testemunho, um livro de gente que viu e experimentou, por trás de todas as coisas, a boa mão de Deus. Quando lemos os seus primeiros capítulos, devemos procurar não os detalhes da criação (tipo se Adão teve umbigo), mas buscar as afirmações fundamentais contidas ali. Em geral, tais afirmações visam responder alguma indagação existencial dos contemporâneos do texto escriturístico. Por exemplo: no capítulo 1, qual a principal afirmação? Eu te digo: DEUS CRIOU. Esta é a afirmação fundamental, de fé, o testemunho daquela gente que andou com Deus. Decerto, em algum momento num passado muito longe de nós, alguém se perguntou sobre o começo da vida e do mundo, e Deus, mediante ação do Espírito, inspirou alguém para que nos deixasse esse maravilhoso registro.  

 

Aqui emerge uma outra pergunta: Então tudo isso foi inventado? A resposta é: NÃO. Com efeito, o Gênesis não é simplesmente o resultado da imaginação de um ou mais homens, mas o produto de uma fé que optou por uma linguagem que fosse universal e atemporal - imagina se o relato da criação do mundo tivesse sido registrado em linguagem científica... Como que o escritor daquele tempo poderia compreender? E mais: se Deus usasse um tipo de linguagem “científica” própria daquela época, hoje ela estaria defasada e os homens ririam de Deus. Daí um relato em linguagem mítica, por ser universal e atravessar as épocas, sempre se prestando a releituras. Subjaz a esta minha fala, uma distinção que merece ser explicitada: é a questão do logos e do mitos. O logos é a mensagem que se quer transmitir, o mitos é a maneira como está mensagem é transmitida. O logos, portanto, é imutável, porém o mitos se presta a atualizações. No caso de Gn 1, o logos (mensagem) é “DEUS CRIOU” e o mitos (maneira como se transmite a mensagem) é a narrativa tal qual a conhecemos. Nós não poderíamos hoje – nem jamais – mudar o logos, mas o mitos pode – e, a rigor, precisa – ser relido e reinterpretado a fim de comunicar adequadamente a mensagem para os leitores hodiernos. 

 

Então Deus permitiu o emprego de um tal tipo de linguagem para que, através dos anos, a mensagem bíblica pudesse ser atualizada? Sim. Mas ainda mais do que isto. Talvez Deus tenha também permitido este tipo de linguagem mitólogica para que a interrogação pelo grande começo ficasse sempre em aberto e assim a arrogância humana tivesse de conviver com seus limites. Além do mais, quem tem certeza não precisa de fé. Daí Jesus dizer: "bem-aventurado os que não viram e creram". Isso, obviamente, não significa que você, para ser crente, precise acreditar em Adão e Eva, mas significa que a vida com Deus se alicerça exclusivamente sobre a confiança, pois a ciência humana em nada nos ajuda nesse sentido.  A fé nasce da dúvida e convive com ela. É a certeza do que não se viu. A vida com Deus é assim. Confiança. Mesmo que tudo aponte na direção contrária, Deus nos pede para confiar. Mesmo que Adão e Eva não tenham existido. Fundamental é lembrar: seja como for, foi Deus quem criou. Todo começo está nele. Ele é o princípio sem princípio... 

 

Outro exemplo ainda no capítulo 1: por que a narrativa fala em diferentes dias e de cada coisa sendo criada segundo uma ordem essencial? Provavelmente, houve uma época na história daquela gente do tempo do AT que as coisas estavam tão fora de controle, tão bagunçada, tão pervertida, que as pessoas se perguntavam pelo por quê. A narrativa do capítulo 1 é para dizer: hoje as coisas podem estar fora de ordem, meio caóticas, mas no princípio não foi assim... Deus criou todas as coisas mediante uma ordem fundamental e eis que tudo era bom. Esta é a mensagem que se quer transmitir ali, pois ela, de um lado, servia para que as pessoas reconhecerem os seus pecados e tomassem consciência do mal que o mesmo traz sobre a criação e a vida humana. Por outro lado, servia também como uma proclamação de esperança: se o homem se voltar para Deus, essa ordem poderá ser reestabelecida. 

 

É muito importante ter em mente que a Bíblia não foi escrita apenas para nós no século XXI, mas foi escrita também, e em primeiro plano, para aquela gente da Bíblia que estava aprendendo sobre Deus e sua vontade no caminhar e viver da vida. Portanto, antes de responder as nossas perguntas, a Bíblia responde as perguntas daquele pessoal que viveu a história registrada nas páginas do AT. Pense, por exemplo, na narrativa do dilúvio e na gente que viveu naquela época (os descendentes de Noé). Será que eles não se perguntavam sobre essas coisas... Lembre-se que no começo do capítulo 6 há um comentário acerca da maldade que se multiplicava sobre a terra... Pense também na torre de Babel. Veja se isso não tem a ver com o que estou tentando te passar. Uma desordem extraordinária, gente pretenciosa, arrogante. E mais: leia os relatos de Gênesis, sobretudo quando José chega no Egito. Há ali o relato de vários povos com diferentes línguas que habitavam aquela terra. Será que ninguém se perguntava pela origem de tantos povos e idiomas? O relato de Babel é uma resposta teológica, de fé, que não significa que as coisas não tenham acontecido, mas que quer transmitir a mensagem de que se ambição humana não fosse tão elevada, os homens e nações teriam condições de falar a mesma língua, a da solidariedade, da justiça e da paz. Mas a ambição desmedida impede a comunicação entre os homens e cria fronteiras: geográficas, políticas, econômicas, etc. 

 

Procure exercitar esse tipo de leitura que leva em consideração o pano de fundo histórico de cada texto. Qualquer outra dúvida, me escreva novamente. Espero ter ajudado de alguma forma. E se não o fiz, perdoe-me. 

 

Um abraço carinhoso.

 

Leandro

 

Rev. Leandro Marques

 
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