"São os olhos a lâmpada do corpo.
Se os teus olhos forem bons,
todo o teu corpo será luminoso."
(Mt 6:22)
Lembrei-me recentemente – a propósito da tragédia de Santa Catarina – de uma reportagem que assisti anos atrás sobre as enchentes decorrentes das chuvas de verão. Impressionou-me, sobretudo, o depoimento de uma senhora muito humilde, desabrigada justamente por conta de tais chuvas. Perdera quase tudo: móveis, eletrodomésticos, bens de família, pertences pessoais etc. Sua casa desabara, restando apenas os alicerces e algumas paredes estruturais. Ao ser interpelada pelo repórter, respondeu algo mais ou menos nestes termos: “Quando construímos nossa casinha, não possuíamos nada além de um pequeno terreno. Agora será mais fácil reconstruí-la do que foi construí-la da primeira vez, pois já temos metade da casa edificada”.
Não dá para afirmar, a partir da reportagem somente, se a senhora em questão era ou não uma mulher temente ao Senhor. Uma certeza há, entretanto: ela possuía aquilo que, nos Evangelhos, Jesus chama de “olhos bons”.
Ter olhos bons é enxergar em tudo um aspecto positivo. É enxergar para além das lutas, percebendo em cada momento uma oportunidade, uma chance de aprender algo novo e ver Deus agir de maneira inusitada em nossas vidas. É ter, para com as pessoas, um olhar livre de condicionamentos pessimistas e desprovido de julgamentos baseados em estereótipos e preconceitos. É ainda mais: é a capacidade de ver para além do óbvio, para além do que está explícito, do que todos são capazes de enxergar. É ver com os olhos da fé, com o coração que teme a Deus e espera nele.
O capítulo 11 da carta aos Hebreus traz uma lista de pessoas que viveram pela fé. Gente que possuía “olhos bons”, que enxergava o invisível, o que não se podia perceber com olhos nus. Gente que sonhava e não tinha medo de arriscar. Gente esperançosa e incrivelmente comprometida com o otimismo; que acreditava que tudo era possível, pois seu Deus era Aquele que, do nada, havia criado todas as coisas. Todos eles foram pessoas luminosas, radiantes, seminais. Suas vidas inspiraram outras vidas e seus exemplos até hoje desafiam as gerações. Foram pessoas bem sucedidas embora não tivessem sempre alcançado o que almejavam.
Em meio às lutas do cotidiano e aos prognósticos pessimistas para o ano que começa, somos chamados a exercitar esta mesma fé e desenvolver este mesmo olhar. Que Deus conceda a cada um “olhos bons”.
Pr. Leandro Marques